quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Manifesto do Carnaval Nômade

A retomada do carnaval de rua do rio de janeiro é um processo histórico e singular. Alguns se lembram das pequenas aglomerações que começaram a ressurgir no final do século passado, em diversos lugares da cidade, relembrando marchinhas, apresentando a própria noção de carnaval para uma nova geração. Esse momento foi mais que a retomada do carnaval, ele foi o momento da retomada da rua, de uma rua que andava a muito esquecida. Sem nenhum esforço do poder público, sem o patrocínio de uma marca de cerveja, sem qualquer cobertura do rj tv, espontânea e coletivamente a multidão tomou à força o que já lhe pertencia: nosso espaço comum.

Nos últimos anos, o crescimento exponencial do número de blocos e de foliões traz uma série de dúvidas em relação ao nosso carnaval. Primeiro porque certos blocos começaram a ficar superlotados, impedindo algumas pessoas de se divertirem, já que ficou impossível ouvir o som dos instrumentos, cantar e dançar. Segundo, porque o Estado e o mercado perceberam o que lhes era óbvio: um precisa controlar a multidão que toma a rua e o outro precisa usá-la para ganhar dinheiro. 2010 trouxe ao auge esse processo de ordenamento e controle: o choque de ordem e uma publicidade abusiva que invade nossas ruas.

Essa tentativa nunca será totalmente efetiva. Porque nós, que não somos nem o Estado nem o mercado, temos a eterna capacidade de nos reinventar. Porém, temos pela frente um desafio histórico de lidar com esse dilema entre o crescimento e a espontaneidade sem qualquer tipo nostalgia ou elitismo. Criar nossas táticas de fuga é manter a verve viva. E isso não significa recusar as massas, mas transformar a massa em multidão que toma a rua de maneira ingovernável, múltipla e criativa.

Não foi preciso escrever esse manifesto para que isso já aconteça. Ao contrário são os próprios sinais da resistência que influem nessa escrita a milhares de mãos. A multiplicação dos blocos em número, ritmo, trajeto e formato, já nos mostra essa criatividade infinita que se esparrama pelas esquinas da cidade e que a prefeitura agora teima em querer controlar. Algumas experiências podem iluminar nosso caminho.

Entre tantas, cito uma que nasce do próprio dilema. Um grupo de foliões que acordou cedo para pular o carnaval se viu enganado: o bloco em que iam tinha mudado de horário propositadamente para que menos pessoas o acompanhassem. Em vez de voltar pra casa eles criaram outro bloco, ali , na mesma hora. Chegou um bumbo, chegou um trompete. A festa começou e dura até hoje. Nos anos seguintes, saindo do mesmo lugar, os foliões inventaram a ocupação de novos espaços, novas acústicas e experiências que vem se tornando memoráveis nos últimos carnavais. A cidade estava aberta, e foi ocupada. Essa experiência lisérgica é a faísca.

Devemos ser nômades. Ocupar a rua desgovernadamente, criar novos caminhos que se bifurcam, inventar o que não foi inventado, criar novas identidades, mudar de endereço. O nomadismo é a redenção da alegria. É a garantia de não ser enquadrado. Devemos ficar na rua o tempo todo, sem rumo, cantando e dançando, sem parar.

Para isso esse manifesto sugere algumas táticas:

  • Ocupar áreas esvaziadas e subutilizadas durante o carnaval, como grande parte do centro, gamboa e diversos bairros do subúrbio.
  • Sair sem rumo do mesmo local e horário dos grandes blocos, se transformando em sub-blocos. Sub não de menor, mas de abaixo da superfície, que se infiltra nas profundezas da cidade.
  • Saber a hora de mudar de horário, mudar de nome, mudar de trajeto. É se desapegar da tradição e reinventar-se constantemente
  • Recusar o cadastramento da Prefeitura. Somos apenas um grupo de pessoas cantando e dançando na rua. Quem pode nos proibir?
  • Zombar do cerco dos grandes meios de comunicação. Recusar o esteriótipo e o esvaziamento de sentido constante dos jornalistas.
  • Intercâmbio de blocos. Que tal a Orquestra Voadora em Bangu e o Virilha de Minhoca no Aterro? (é só um exemplo, mas quem não conhece o virilha de minhoca deveria conhecer)

Conversando com um bêbado na rua ele nos sugeriu um nome: A Desliga dos Blocos do Rio de Janeiro. Foi fundada na mesma hora. Sem Presidente ou Tesoureiro. Filiação voluntária e automática. A Desliga não é contra o carnaval certinho. Até porque nele ainda há espaço pra muita diversão, alegria e catarse coletiva. Sem ele as ruas não estariam tão cheias de pessoas fantasiadas. A Desliga é a válvula de escape para aqueles que querem mais. E todos estão convidados.

A Desliga também não é contra o poder público, mas acha que poder público deve fazer o que lhe convém. Em vez de cadastrar blocos, deve criar áreas livres de folia em diferentes bairros, em diferentes dias do carnaval para que os nômades possam passar. E vez de aumentar a passagem, deve oferecer transporte gratuito e ininterrupto para todos, facilitando a circulação e a integração da cidade. (Vale dar uma olhada: http://tarifazero.net)

O carnaval é e sempre será um ato politico. (Como demonstrou bem nesse ano de 2010 o bloco “Vergonha da Zona Sul” que levou a banda de catadores e mendigos para a praia de Ipanema). É a incorporação da arte no cotidiano. Lutar para preservar sua potência é lutar por uma rua que nos é sempre tirada. Avancemos foliões nômades !! Viva o carnaval, viva o Zé pereira e o Saci pererê, Viva o sorriso doce dos que desobedecem.... Em tempos de tanques nas ruas, não retrocedamos, com a certeza de que um dia, o exército de palhaços vencerá!!

Ass: foliões nômades, palhaços anônimos, Comitê Ambulante da Desliga dos Blocos do Rio de Janeiro

Assine o manifesto faça seu comentário


54 comentários:

Anônimo disse...

genial,

assino em baixo:

pedro costa

rádio memória disse...

assino
wallace hermann

luizsergiocardoso@yahoo.com.br disse...

subscrevo cheio de más intenções.

artur nabeth

Anônimo disse...

Assino!!!
Rhea Willmer

Dj Dan Rock Batuqeiro do Monobloco disse...

assino embaixo
Dan Nissan Cohen

Henrique disse...

efteja affinado,

Henrique Moura

Cláudio Luiz disse...

Desligo e caio na folia.

Helê disse...

Tô dentro!

MUSICAIS disse...

assino em cima e dos lados

Galiña disse...

Concordo 1000%! Assinado! Boa luta!

Anônimo disse...

assino

Tatiana Gouveia

tenham o prazer de conhecer o Virilha de Minhoca, um dos últimos blocos de sujo da cidade!

giuliano bonorandi disse...

Assino embaixo!!

Anônimo disse...

assino:

Marina Fraga

sugiro que façam uma petition online, demorei a entender como assinar! Viva o Carnaval Nômade!

Gustavo disse...

Assino em baixo, em cima e do lado!

Rafa Velloso disse...

Cheio de boas intenções, como manifesto assino e repasso!

Rafael Velloso

Anônimo disse...

para uma folia espontânea e lisergica sempre!

Cacá Pitrez

Carlos Augusto disse...

Asssino embaixo

Carlos Molina

Tato Fischer disse...

Ainda bem, continuamos vivos...

Tato Fischer disse...

ainda bem: estamos vivos!

jana disse...

assino total!

brUno disse...

vamos carnarevolucionar!
assino embaixo, em cima, dos lados...
tamo junto!

fabio maciel disse...

boa! a rua é nossa!!!!

denise disse...

Maravilha!

jabuti disse...

vibrante!!!
assino em baixo!

joao guimaraes

Anônimo disse...

vibrante!!
assino em baixo
Joao guimaraes

Anônimo disse...

assino!
Priscila Bittencourt

Dj MiXXXuruca disse...

a idéia é legal, mas duvido que alguém va em bangu. se a galera nomade realmente tivesse a inteção de unir, não teria a maioria das reuniões de 2010 sido as quintas a tarde onde a galera que trabalha ainda ta no batente, e que eu me lembre sempre foi em bota-fogo. porque não reuniram em bagu? rsrsrs

Mas a idéia de Recusar o cadastramento da Prefeitura é perfeita

pseiblitz disse...

assinadíssimo!!!

Anônimo disse...

Assinadíssimo!!!

Anônimo disse...

Assinado!!!

Chico Oliveira

Nana disse...

LINDO! Tô com a desliga e num abro!

Bd disse...

Assinado e desligado
Bruno Cesar Dias

Anônimo disse...

É isso aí. carnaval é manifestação política, sim!
Assino com muito gosto

Anônimo disse...

É isso aí. carnaval é manifestação política, sim!
Assino com muito gosto

Migliorin disse...

Muito Bom!
Cezar Migliorin

4Ventos disse...

Caos narval, não tem explicação, definição, obrigação!

Anônimo disse...

Apoiado.

Felipe de Carvalho

Birunda disse...

Apoiado! Viva a Zona Autônoma Temporária do carnaval.

Anônimo disse...

Assino, e confirmo!
nômades e felizes :D

Carlos Humberto disse...

...esses exemplos são perfeitos para ocupação de espaços públicos dos municípios da baixada, que não tem a mesma diversidade de equipamentos culturais como os concentrados no centro e na zona sul da capital do estado.

Bebel disse...

assino em baixo!
ana isabel boettcher

kpllo disse...

Assinadíssimo: Pedro Capello

rmlemos disse...

Assinado!
Ricardo Mouzer Lemos.

Talita Arruda disse...

assinado

gringo que fala disse...

assinado e re-postado! parabéns!

Anônimo disse...

É por aí !!!!!

Thiago H.

Ciro disse...

Excelentes texto e idéia! Vou à rua assinar o manifesto como se deve!

Sabrina Guerghe disse...

boa iniciativa!
apoiado!

Ana Rezende disse...

e yo!


Ana Rezende

Gabi disse...

Gabriela Bittencourt Romero de Barros.

Roberto Souza Leão disse...

Roberto Souza Leão

Sem rumo, nem destino.

Anônimo disse...

assina aonde?
pó botar meu nome onde for.

heraldo hb

Thiago Lazeri disse...

ASSINO E DOU FÉ!

Thiago Lázeri, de Porto Alegre, do Bloco da Laje.

Victor disse...

5 carnavais depois: releitura prática do manifesto do carnaval nômade

a orquestra não voou em bangu e teve seu carnaval oficializado pelo estado e pelo mercado.

aí que... os que queriam mais resolveram que haveria um novo bloco, no mesmo horário num local próximo. no início sobrava desejo e faltava instrumentos. teria dado errado, mas eram pessoas conscientes de que não se tratava de algo pronto, de que não bastava ir, era preciso construir...

e assim chegou uma caixa, chegou outra, chegou um surdo, outro, outra caixa, uma singela clarineta... e já era bloco.

pelas ladeiras da glórias, sem rumo, por meia dúzia de horas que valeram muitas mais, valiam um carnaval inteiro. ao final, a turba veio desaguando no centro para reverenciar o bafo da onça e o cacique de ramos.


como nota de rodapé, vale a sugestão de um acréscimo à lista de dicas do nomadismo:

- o excesso de instrumentos melódicos simplesmente elimina o canto, pasteurizando a sonoridade dos blocos. e também acaba com a possibilidade de um folião interferir, puxando uma música.